A arte de ajudar !

19/07/2009

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                           Quem procura, acha!


Meu nome é Pedro Werneck, tenho 46 anos, sou casado e pai de 3 filhas. Nasci e cresci no Rio de Janeiro e como tantos outros cariocas, gosto de praia, de sol, de esportes, de estar junto dos amigos e de muitas outras coisas comuns à maioria das pessoas. Contudo, em 1994, tive uma oportunidade que trouxe um novo entendimento à minha vida, embora não tenha deixado de ser ou de fazer tudo aquilo que eu era ou fazia, minha vida se transformou.


Na verdade, não foi uma mudança, e sim, a descoberta de  uma oportunidade. Naquele ano de 1994, conheci uma mãe com o nome de flor: Flordelis. Flordelis vivia uma enorme provação por ter se tornado "mãe de coração" de mais de trinta filhos, morava em uma favela, e não tinha nenhuma condição de manter essas crianças.


Conheci sua história assistindo a uma reportagem na TV. Acreditei no que meu coração dizia à minha razão, e resolvi ajudá-la. De imediato, ajudávamos com um auxilio modesto: enviávamos, eu e meu irmão Zeca, semanalmente, uma pequena quantia para a conta dela. Depois de alguns meses, descobri,  lendo uma matéria de jornal, que a "mãe"  era uma foragida. O juiz havia decretado sua prisão e a policia estava à sua procura.


Levei um grande susto. Foi uma decepção que chegou a doer, então me afastei. Ela, contudo, me procurou, e me permiti compreender o que tinha a me dizer. Logo ficou claro que o único “crime” dela era querer cuidar dos “filhos”, abandonados pelas mães biológicas. Acreditei mais uma vez, me envolvi e, junto com meu irmão Carlos, ajudei a esclarecer que ela não era o que desejavam fazer com que parecesse ser.


Pude, então, ver transformações ocorrerem na vida daquela família: casa, estudo, tratamento médico, passeios, entre outras novas condições antes inexistentes. Juntos, eu e Carlos reunimos nossos amigos dispostos a colaborar. Estando Flordelis já livre das questões com a justiça percebemos que poderíamos fazer mais.
Confiantes nesse sentimento partimos, eu e meu irmão, em busca de um outro “alguém” que necessitasse de um apoio semelhante. Aprendi, desde cedo, ouvindo minha Mãe: "Quem procura, acha!". Nos meses seguintes, prosseguimos procurando. Nessa busca, encontramos a Fernanda, ainda bem jovem, tinha pouco mais de vinte anos de idade. Mantinha uma casa com trinta e cinco crianças,  vitimas de paralisia cerebral,  grande parte sem família. Os recursos que ela usava para manter as crianças vinham do Estado - infelizmente insuficientes e sempre com atraso.


Entendemos ser aquele o novo local, o novo “alguém” que procurávamos. Dividimos a idéia com nossos amigos, que se aliaram conosco nesse novo projeto. Assim, pudemos auxiliar provendo o necessário para uma condição de existência ao menos digna e humana na instituição. Atuávamos em silêncio, sem despertar a atenção pública, até que sobreveio uma experiência incrível, que modificou completamente a nossa noção do que significava verdadeiramente o sentido do verbo transformar.


Naquele período vivenciamos a história de uma criança refém do descaso e do abandono, rejeitada pela mãe e que experimentou a iminência da morte, decorrente de um gravíssimo quadro de meningite e, posteriormente, um envenenamento. Mais uma vítima inocente, felizmente com o diferencial de que, por uma sucessão de eventos aparentemente aleatórios, encontrou abrigo quando a tragédia parecia ser fato consumado. Inicialmente a pequena menina foi amparada pelo poder público, em seguida pela Fernanda e, finalmente, condições favoráveis permitiram que ela passasse a integrar a família da “Mãe Flor” - Tudo foi possível por existirem a Flordelis, a Fernanda e o nosso grupo de amigos. Essa soma foi potencializada pela boa vontade de todos!


De um instante para o outro, entendemos como foi possível a pequena rede que formávamos promover a transformação de uma história de vida. Percebemos que poderíamos fazer muito mais. Como foi bom compreender isso. Ficou claro que poder realizar ações de impacto social significava, sobretudo, entender que não precisávamos, necessariamente, que fizessem o mesmo por nós. Afinal, tínhamos saúde, educação, família, trabalho, amigos e outras condições que  nos conferiram uma boa formação.

Se dispusermos de muito, ou pouco, cada um tem a sua própria impressão. No entanto, é certo que nenhum de nós se credenciou, antecipadamente, para merecer ou não o que foi concedido. De fato, temos a certeza do que recebemos; a dúvida é o porquê de tal merecimento. Acreditamos que havíamos encontrado a oportunidade de fazer mais. Foi quando demos uma identidade para o nosso movimento, para que o mesmo pudesse ser compartilhado livremente pelos que acreditam na força do “poder de ajudar”.


O poder é prerrogativa dos seres que pensam. Somente estes têm a possibilidade de escolha entre o “fazer” e o “não fazer”, o poder corresponde à vontade de fazer. Assim surgia o INSTITUTO DA CRIANÇA!


Anos depois, vivenciei um forte transtorno pessoal que abalou o meu sistema emocional de tal maneira, que a minha imunidade se fragilizou a ponto de permitir que eu adoecesse gravemente. De fato, tive o risco de perder a vida. Uma tarde, enquanto estava no hospital, sedado e desorientado pelos medicamentos, abri os olhos e me deparei com Flordelis, seu marido, e três dos seus filhos sentados em um sofá à minha frente. Olhavam apreensivos e quando “Flor” percebeu que eu havia despertado mesmo sem saber se eu seria capaz de compreendê-la, imediatamente disse que precisava ficar curado logo, porque contavam muito comigo.
Instintivamente um primeiro sorriso surgiu no meu rosto e respondi confiante que iria ficar bom. E, a partir daquele instante, eu realmente passei a ter a plena certeza de que iria me recuperar. Deus e eu sabemos como aquela visita foi importante para me fazer reagir e encontrar forças para me levantar novamente.


Agradeço a Ele pela oportunidade que me foi conferida.  Pude descobrir o quanto podemos ser felizes diante do simples fato de sabermos que podemos fazer algo por alguém.


Hoje, me dedico integralmente ao desenvolvimento das ações do INSTITUTO DA CRIANÇA. Temos nove obras apoiadas, três programas de educação, uma filial em São Paulo, parceiros nos EUA e um grande numero de colaboradores sempre dispostos a fazer mais, muito mais.


Obrigado,
Pedro Werneck.

foto: google

 

Postado por Pedro Werneck | Categoria: Arte | Tags: arte, de, ajudar

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Comentários

  1. Maria Jose - Rio Maior, Portugal
    29/07/2009

    Acho maravilhoso esse amor incondicional, que tão poucos ainda teem e que deve crescer fortemente neste mundo, é o meu sonho um dia poder ajudar dessa forma, mas de momento e com a crise que passamos estou num processo imposto e por falta de amor e provavelmente porque em dada altura a vida corria bem e com isto não vi o que deveria ver, estou á beira de perder tudo mesmo tudo, e ver se alguem me aluga uma casa para viver. Mas sei que Deus não dorme e que estará lá no mento certo. Amigo vá sempre em frente é tão gratificante quando conseguimos ajudar o proximo o nosso coração brilha de todas as cores. abraços com muito amor

  2. paulo roberto rodrigues pereira - cascavel ceara, ceara
    29/07/2009

    muito bem irmao, uma boa açao pelo proximo , temos mesmo que fazer cada um a sua parte como cristao , pois nunca sabemos o dia de amanha podemos esta com ou sem saude ou talvez sem vida. o que fica para tras e o que fizemos boas açoes . esta mesmo de parabens.

  3. José Luiz Verta - Rio de Janeiro, RJ
    30/07/2009

    É verdadeiramente formidável perceber que, mesmo no mundo tão conturbado no qual hoje vivemos, existem ainda pessoas assim, capazes de acreditar no próximo (porque caso não acreditassem, julgariam que o auxílio seria perda de tempo) e, mais ainda, em si mesmas, pois há de ser necessária muita força de vontade - muita fé - para fazer com que algo que nasceu tão pequeno venha a se tornar uma obra de tamanho valor e de tão profundo impacto na vida de inúmeras pessoas. Essa capacidade de mudar, de transformar vidas - e acompanhar tal processo, certamente há de ser extremamente gratificante para o Sr. Pedro Werneck, bem como para aqueles que o acompanham em sua "jornada". Serve como exemplo para todos: acreditar na força do "poder de ajudar", como foi mencionado no texto. Deixo aqui os meus parabéns e votos de muito sucesso para o Sr. Pedro e para o INSTITUTO DA CRIANÇA. Uma história muito bonita e uma admirável "Obra de Vida".

  4. Antonio Carlos de Oliveira Junior - Ponte Nova, Minas Gerais
    31/07/2009

    Realmente são casos que merecem todo reconhecimento e crédito pela iniciativa, muitas vezes nos deparamos com situações que realmente nos colocam a pensar nos "previlégios" que nos foram concedidos enquanto outros infelizmente não os tem, parabéns pela iniciativa, esse tipo de atitude é que transforma as pessoas, às vezes tudo que precisamos é de um ponta-pé inicial, é importante abrir os olhos, muitas vezes quem precisa de ajuda e apoio está dentro de nossa própria casa mas não conseguimos enxergar, o primeiro passo é sempre nosso basta prestar atenção à sua volta.

  5. Benta Maria Mattia Andrades - Concórdia, Santa Catarina
    31/07/2009

    Pedro, teu nome já diz tudo, é rocha, forte, potente, porque é preciso ser forte, ser corajoso e além de tudo se desligar de medos, aparências e vícios. è pensar além, saber que uma atitude como a tua é maravilhosa, principalmente neste mundo egoísta, onde cada um só pensa em si e acham que só cabe ao outro fazer alguma mudança. Parabéns

  6. Monica Velloso - Rio de Janeiro, RJ
    03/08/2009

    Pedro, Em qualquer versão, falada ou escrita, essa história é lsempre linda e valiosa!!!! Bj

  7. Marcia Kemp - Rio de Janeiro , RJ
    20/08/2009

    Pedro, O mundo precisa de pessoas como voce ..abundantes .. que ensinam que uma das grandes formas de viver feliz é pode ajudar a pessoas que nao tiveram condições tao favorecidas . Ainda mais bacana é conseguir faze las acreditar que ser feliz é um direito Divino e que todos podem ter suas vidas transformadas. Basta que uns ajudem aos outros.Que voce continue inspirando muitas vidas humanas. Parabens!!

  8. Rosana - São Luís, Maranhão
    07/09/2009

    Você não imagina o alívio de saber que existem outras "loucas" como eu! Tenho 10 filhos e eu sei o que a Flor de Liz passou... Eu gostaria muito de ter o email dela para que pudessemos trocar experiencias.